Insetos na alimentação: a proteína do futuro
Do 'bicho grilo' ao suplemento de cavalo de competição: a jornada de quatro anos da Ybynsect na Expointer

"Se o negócio é tão bom, que tem tantos nutrientes, é tão maravilhoso assim, o ideal é criar em escala e botar para produção."
— Mauro Ávila
Os Painelistas
A Conversa
Esta foi a conversa mais longa e detalhada da Arquibancada, revisitando e aprofundando a apresentação de Mauro Ávila já feita na vitrine da manhã. O ponto de partida foi a mudança de percepção do público: há quatro anos, na primeira participação da empresa na Expointer, o setor de proteína animal tradicional via a Ybynsect com desconfiança ('bicho grilo'); hoje, Mauro é convidado para bate-papos e degustações no mesmo evento — sinal de que a barreira cultural, embora ainda real, vem diminuindo de forma mensurável.
A conversa detalhou o ciclo biológico do Tenebrio molitor com precisão pouco vista em outros pitches: ciclo natural de dois anos, reduzido para seis meses em condições controladas; larva colhida entre três e quatro meses; fase de pupa de oito a dez dias; besouro produtivo por cerca de um mês e meio. A produção hoje soma 'alguns milhões' de besouros em aproximadamente 400 alojamentos (bandejas), com plano de escalar 10 vezes a área após mudança para uma nova instalação de 450 m² em Sapiranga — e ambição de automatizar o manejo com maquinário importado da China, já que peneiramento manual se torna inviável em escala de milhares de bandejas.
Um momento central foi a degustação ao vivo de um brownie com 10% de farinha de inseto: em teste sensorial com engenheira de alimentos do IFRS-Erechim, 85% dos provadores não notaram diferença de sabor com 10% de inserção, mais de 50% preferiram o sabor com 15%, e 85% afirmaram que comprariam se houvesse aprovação regulatória para consumo humano. Mauro explicou que a barreira legal para alimentação humana no Brasil ainda não existe (diferente da alimentação animal, regulamentada desde 2021-2022 para seis espécies de inseto) — a Anvisa tem cerca de 21 pedidos de análise represados, com previsão de três a cinco anos para posicionamento, em processo comparado por Mauro à exigência de testes com população brasileira que também ocorreu com vacinas.
O painel fechou com dados nutricionais e um mercado inesperado: a proteína, hipoalergênica e com 87% de digestibilidade, tem seu principal cliente hoje no segmento pet (mercado de US$ 40 bilhões/ano), especialmente cães com alergias alimentares severas — incluindo um caso relatado de remissão de sintomas em cão que não tolerava mais nenhuma outra fonte de proteína. Mauro também revelou planos de desengordurar o inseto (de 32% para cerca de 10% de gordura) para desenvolver suplemento energético para cavalos de competição, já que o fígado equino não processa bem gordura em excesso.
Insights para Considerar
Alimentação animal já é regulamentada
A certificação para alimentação animal já existe desde 2021-2022 para seis espécies de inseto — empresas de nutrição animal que ainda não avaliaram esse insumo estão ignorando uma categoria já regulamentada, não apenas uma promessa futura.
Horizonte de três a cinco anos para humanos
Para alimentação humana, a expectativa realista de aprovação da Anvisa é de três a cinco anos — investidores ou empresas de alimentos que avaliam esse mercado devem tratar o horizonte de humanos como aposta de longo prazo, e o mercado animal (já liberado) como a via de receita imediata.
A barreira não é o paladar
O teste sensorial mostrou que inserção de até 15% de farinha de inseto não compromete — e pode até melhorar — a percepção de sabor em produtos como brownie; empresas de alimentos que buscam fonte de proteína alternativa sustentável têm aqui validação de que a barreira é regulatória e cultural, não de palatabilidade.
Mirar nichos que pagam mais
O mercado pet (US$ 40 bilhões/ano) se mostrou mais disposto a pagar por proteína hipoalergênica de qualidade do que o mercado de commodity tradicional — startups de proteína alternativa deveriam mirar nichos de maior disposição a pagar antes de competir diretamente com farinha de peixe ou soja em ração de baixo custo.
Um ajuste, um mercado novo
O plano de desengordurar a proteína para criar suplemento para cavalos de competição mostra como ajustar uma única variável do produto (percentual de gordura) pode abrir um mercado adjacente inteiramente novo — empresas de insumo animal deveriam mapear outros mercados adjacentes viáveis com pequenos ajustes de formulação.
Subproduto subexplorado
A gordura do inseto, rica em ômega-3 e ômega-6 poli-insaturados, tem aplicação potencial tanto em cosméticos quanto em alimentação humana — um subproduto do processo principal que ainda está subexplorado comercialmente pela própria empresa.
Frases de Impacto
"Se o negócio é tão bom, que tem tantos nutrientes, é tão maravilhoso assim, o ideal é criar em escala e botar para produção."
"A digestibilidade… na faixa de 87%, porque tu não vai encontrar nenhuma outra proteína animal com mais digestibilidade que nem essa aí."
"Vocês são a fim de falar de inseto um pouquinho? Vocês acharam que iam vir para a Expointer para a gente falar de inseto?"
"Se o pessoal soubesse o percentual permitido para tomates, por exemplo, de ratos em tomate, eles iam ficar apavorados."









