Produtores escalando com tecnologia no campo
Nós-pecã, selo de carne e feira digital: como três mulheres redesenham o que 'inovação no campo' significa

"Quando a gente fala em tecnologia, inovação, a gente sempre pensa em máquina, mas a maior inovação está dentro da gente."
— Annelise Scheib
Os Painelistas
Annelise Scheib
Cofundadora da PECAM Brasil, produtora de nogueira-pecã que diversificou receita com linha própria de produtos e parcerias com universidades.
A Conversa
O painel de encerramento da Arquibancada trouxe uma tese que atravessou toda a conversa: inovação no agro não é sinônimo de sensor ou aplicativo — é, antes de tudo, mudança de comportamento e de comunicação. Aline Barilli, cuja startup Produtores Unidos nasceu durante as enchentes de 2024 como movimento de apoio a produtores e agroindústrias, apresentou o ecossistema que hoje inclui curso de extensão com a UFRGS, loja física e a Feira Digital Sabor Gaúcho, plataforma de e-commerce em parceria com o governo do Estado que já vende produtos da agricultura familiar gaúcha para o Brasil inteiro.
Annelise Scheib contou a trajetória pouco convencional da PECAM Brasil: ela e o marido (engenheiro de minas) assumiram uma propriedade rural quase por acaso, apostando na cultura da nogueira-pecã — praticamente inédita comercialmente no Brasil na época. A curva de aprendizado incluiu viagem ao Texas (referência internacional em nós-pecã) e erros práticos de manejo (não retirar o saco plástico da raiz das mudas, por exemplo), mas o diferencial estratégico foi recusar competir só com o mesmo produto de sempre — criando linha própria de produtos (Pecantone, alfajor, doce de leite em parceria com outro produtor local) e buscando parcerias com universidades para desenvolvimento de novos produtos.
Antônia Scalzilli, do Instituto Desenvolve Pecuária, trouxe o dado mais contundente do painel: apenas 3% das propriedades pecuárias do Rio Grande do Sul têm operação realmente tecnológica — mas fez questão de reposicionar o conceito de inovação para além de drones e colares inteligentes (embora tenha citado ambos), defendendo que a maior inovação da pecuária hoje é a mudança de percepção do próprio produtor sobre a importância de comunicar o que faz. Ela detalhou o lançamento do selo do Instituto — resultado de produtores e indústria frigorífica se unindo pela primeira vez, superando desconfiança histórica mútua, para agregar valor coletivo à carne gaúcha diante da impossibilidade de competir por volume com outros estados e países.
O painel fechou com um consenso prático: reputação e rastreabilidade de história (quem produziu, onde, com que impacto) já são fator de decisão de compra para consumidores mais jovens e engajados — e cadeias curtas, parcerias entre produtores (como o doce de leite com pecã relatado por Annelise) e comunicação direta ao consumidor final são hoje tão estratégicas quanto qualquer sensor de solo ou de pasto discutido ao longo do dia.
Insights para Considerar
95% de espaço para penetração na pecuária
Apenas 3% das propriedades pecuárias do RS têm operação tecnológica segundo o Instituto Desenvolve Pecuária — quem vende tecnologia para pecuária de corte no Estado está mirando um mercado com mais de 95% de espaço para penetração, mas precisa resolver antes a barreira cultural, não só a técnica.
Selo como pacto entre elos rivais
A criação de um selo unindo produtores e indústria frigorífica (historicamente vistos como 'lados opostos') mostra que agregação de valor coletiva exige romper desconfiança histórica entre elos da cadeia — outras cadeias produtivas fragmentadas podem replicar esse modelo de união formal via selo ou certificação conjunta.
Diferenciação em vez de volume
O RS não vai competir com outros estados por volume de rebanho — a estratégia validada no painel é diferenciação e agregação de valor (qualidade de acabamento, rastreabilidade, história) em vez de escala bruta; produtores da região deveriam calibrar investimento de acordo com essa vocação estrutural, não tentar competir em commodity puro.
Diversificar sem nova área
A diversificação de produto a partir de uma mesma matéria-prima (pecã virando panetone, alfajor, doce de leite em parceria com outro produtor) multiplicou os canais de receita sem exigir nova área de produção — modelo replicável para outros produtores de nicho da agricultura familiar.
A história do produto já vale prêmio
O público mais jovem já pesquisa origem, impacto e responsabilidade do produto antes de comprar (comportamento citado explicitamente pelas duas convidadas) — produtores que ainda vendem apenas commodity sem contar a própria história estão deixando de capturar esse prêmio de percepção que já existe no mercado.
Novos canais, novas audiências
A comparação entre o público do South Summit Brazil (80% nunca tinha ido à Expointer) e o público tradicional da feira mostra que diversificar canal de exposição (não só feira agro tradicional) pode abrir audiência de consumidor totalmente nova e mais disposta a pagar por produto diferenciado.
Frases de Impacto
"A ideia aqui hoje é um bate-papo… para falar um pouco mais sobre inovação no agro, de maneira geral, cada uma no seu setor, e que a inovação no campo não é só tecnologia em si."
"Nem todo produto é para todo mercado. É para público diferente, é para local diferente."
"Quando a gente fala em tecnologia, inovação, a gente sempre pensa em máquina, mas a maior inovação está dentro da gente."
"A gente precisa olhar diferente do que todo mundo está pensando… a minha inovação, eu não consigo fazer sozinha."
"A gente tem uma pirâmide da pecuária, onde apenas 3% das propriedades aqui no Estado têm uma pecuária realmente tecnológica."
"Preço não é valor. Valor, quem diz o que vale é o consumidor."









