Agro Gaúcho 2035: clima, dados e as decisões que constroem a próxima década
Bioenergia como 'unicórnio dourado': o que o RS aposta para chegar a 2035 mais forte

Os Painelistas
A Conversa
O painel abriu com um recorte temporal ambicioso — como será o agro gaúcho em 2035 — e os três convidados construíram respostas que convergem para um mesmo eixo: dado, água e energia como pilares de uma transição já em curso. Isa Osterkamp detalhou o vínculo crescente entre as secretarias de Agricultura e Meio Ambiente, incluindo programas de agricultura de baixo carbono, descarbonização de cadeias produtivas (começando por cinco cadeias, com plano de ampliação) e um novo Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para produtores de arroz com selo IRGA. Mas o núcleo de sua fala foi bioenergia: etanol de cereais, biogás, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF) — com um projeto pioneiro na Refinaria Riograndense — e hidrogênio verde aplicado à produção de amônia para fertilizantes, dispensando a necessidade de importar esse insumo.
Eduardo Condorelli trouxe a perspectiva de formação e capacitação do SENAR, com um argumento de fundo: a complexidade de produzir hoje (licenciamento ambiental, compliance, integração com toda uma cadeia de serviços) exige mais inteligência do que qualquer geração anterior precisou — ele descreveu essa interdependência como uma "mandala" ou teia em que setor primário, secundário e terciário não existem mais isolados. Ele anunciou o lançamento do Joia, agente de inteligência artificial do SENAR voltado a produtores rurais de todo o Brasil, e fez um alerta relevante sobre inclusão: tratar inovação apenas como IA de ponta risca excluir uma parcela enorme da população rural para quem um debulhador de milho ou um trator com caixa alta e baixa ainda representa avanço tecnológico real — uma escada de evolução, não um degrau único.
Gustavo Paim concentrou sua fala na agricultura familiar e no problema estrutural de dados fragmentados, o que motivou uma pesquisa com quase 4 mil jovens da agricultura familiar e um censo com quase 3.200 agroindústrias familiares no Estado — que revelou 265 comandadas por jovens e 179 por mulheres. Ele também detalhou o programa Terra Forte, de manejo e descompactação de solo para retenção de água, apontando estiagem como ameaça tão relevante quanto os grandes volumes de chuva — e destacando que irrigação, apesar de essencial, exige investimento na casa dos bilhões de reais.
O painel fechou com um consenso sobre o risco de tratar tecnologia como exclusividade em vez de inclusão — e com Paim resumindo a tensão entre tradição e inovação com o slogan do próprio Pavilhão da Agricultura Familiar: "a verdadeira inovação é a tradição".
Insights para Considerar
Bioenergia: o projeto mais concreto é o SAF
Bioenergia (SAF, hidrogênio verde/amônia verde, biogás/biometano) apareceu em praticamente todos os painéis do dia como fronteira de investimento — mas o projeto mais concreto e datável é o de combustível sustentável de aviação na Refinaria Riograndense. Empresas de logística, energia ou insumos deveriam mapear esse projeto como referência de escala e cronograma real, não como conceito distante.
PSA do arroz: dinheiro na mesa
O novo PSA para produtores de arroz com selo IRGA paga por hectare em função de práticas sustentáveis já adotadas — muitos produtores já praticam manejo de baixo carbono, segundo Isa Osterkamp, sem conseguir demonstrar isso formalmente. Produtores com selo IRGA podem estar deixando dinheiro na mesa por não terem se inscrito: vale checar elegibilidade antes do início dos pagamentos.
A lacuna de irrigação está na soja
A disparidade entre soja irrigada (~4% da área no RS) e arroz irrigado (quase 100%) revela onde está o maior espaço de crescimento para quem vende tecnologia ou financiamento de irrigação — a lacuna não é falta de tecnologia disponível, é a baixa adoção numa cultura de altíssimo volume (o RS saiu de 12,9 milhões para quase 20 milhões de toneladas de soja em dez anos).
Manejo de solo como pré-condição para seguro
O programa Terra Forte de manejo de solo foi citado como pré-condição — não coadjuvante — para melhorar acesso a seguro rural: solo com baixa retenção de água aumenta o risco de quebra de safra em qualquer estiagem, elevando o custo do seguro. Produtores que buscam seguro mais barato deveriam investir primeiro em manejo de solo, não tratar isso como frentes separadas.
Inovação como inclusão, não exclusividade
O alerta de Eduardo Condorelli sobre tratar inovação como exclusividade, e não inclusão, tem implicação direta de produto: solução tecnológica desenhada só para o produtor de ponta corre risco de não ser adotada pela maioria — que ainda vê avanço tecnológico em um debulhador de milho ou um trator com caixa alta e baixa. Startups que miram mercado de massa deveriam desenhar produto e comunicação para essa realidade, não só para o early adopter.
Joia: termômetro da adoção de IA
O lançamento do Joia (agente de IA do SENAR para produtores de todo o Brasil) é movimento institucional relevante de democratização de acesso a IA fora do circuito de startups privadas — vale acompanhar a adoção como termômetro de quanto o produtor médio está de fato disposto a usar IA no dia a dia.
Frases de Impacto
"Nós, enquanto Secretaria do Meio Ambiente, temos uma visão de que o agro sempre deve estar linkado com o meio ambiente."
"Se não tivermos o meio ambiente à disposição do agro para termos bioenergias, o agro não tem mais volta na produção de energia."
"Isso não é um cavalo encilhado, é um unicórnio dourado se ajoelhando pra gente montar em cima."
"Precisamos tomar cuidado para que a tecnologia não seja um tema de exclusividade, mas sim de inclusividade."
"Não se faz nada sem dados e sem informação no mundo em que vivemos."
"Na agricultura familiar o slogan é: 'A verdadeira inovação é a tradição'."
"Que projeto maravilhoso de colocar o South Summit Brazil com o pé forte aqui no agronegócio."
"O pano de fundo nosso aqui é o agronegócio em 2035. Como é que vai ser o Rio Grande do Sul?"









